Antes da filosofia, o povo grego buscou explicar a realidade através do mito. Essa era uma tentativa de lidar com aquilo que não conseguiam entender, mas que necessitava de uma explicação para fundamentar as decisões da vida.
Naquele contexto, a estrutura social também era influenciada, e os homens acreditavam que os heróis, os líderes e os “bem-nascidos” eram abençoados pelos deuses. Mas ainda hoje tendemos a carregar essa perspectiva social de que líderes carregam bênçãos, quando, na verdade, podem ser parte da própria punição.
Com frequência, lideranças se distanciam do povo, e o poder se concentra nas mãos de poucos, que passam a se perceber como uma elite.
Foi assim na Grécia antiga, no período medieval, na modernidade e continua sendo hoje, em diferentes estruturas sociais. A ideia de ser escolhido pelo mito ou por Deus, ainda que equivocada, carrega um pressuposto perigoso: o de que há, necessariamente, alguma virtude ou boa intenção.
Essa forma de interpretar a vida fundamenta comportamentos e molda a organização social.
Assim, ser escolhido pelos deuses, por Deus ou pela vontade do povo garante acesso ao poder, como também à imagem e à confiança necessárias para exercê-lo (Weber).
Na Antiguidade grega, a autoridade do poeta conferia força ao mito, influenciando a estrutura social. No absolutismo monárquico, o rei concentrava o poder de forma praticamente incontestável. Em regimes autoritários, ditadores e seus aliados impõem regras severas à população.
Por outro lado, na narrativa bíblica, homens que abusaram do poder concedido por Deus sofreram consequências graves. Já os avanços da modernidade nos guiaram a um modelo de Constituição que equilibra o poder com pesos e contrapesos (Montesquieu), visando um Estado mais justo.
Ainda assim, o poder, tão desejado, frequentemente leva à loucura e ao sofrimento coletivo. Estados são prejudicados, reinos caem, cidades enfrentam corrupção, e comunidades religiosas se degradam em imoralidade e distorção da verdade.
Diante disso, quem busca o poder deveria refletir sobre o fim de sua própria vida, porque acessá-lo é estar em desequilíbrio com os demais. Por isso a punição necessita ser rígida.
No entanto, líderes raramente se voltam à voz da multidão. Cercam-se de poucos e passam a ouvir apenas o que desejam. Ou seja, torna-se fácil ignorar a realidade.
Enquanto isso, o povo é quem termina arcando com altos impostos, mudando de país ou de igreja. Afinal, se todos decidirem ir embora, certamente não foi por causa do governo. E quando precisam escolher entre responsabilizar lideranças ou penalizar a população, é o povo que sofre, afinal, é mais fácil substituí-lo do que reformar estruturas.
Ainda assim, algumas instituições conseguem conter abusos com mais eficácia do que outras.
Por vezes, aquele que ocupa o poder torna-se a própria punição de uma sociedade, reflexo de sua tolerância à corrupção, da cultura do engano e da ausência de justiça. Diante disso, um verdadeiro líder deveria se perguntar: sou parte da punição que recai sobre o povo? Nenhuma consciência íntegra sustentaria a ilusão de boa liderança diante dessa possibilidade.
Um líder comprometido deve estar ao lado do povo contra aqueles que buscam apenas os benefícios do poder. Conselheiros íntegros devem se opor a lideranças destrutivas. E o povo precisa se levantar contra aqueles que exploram sua confiança, seu trabalho e seus recursos.
Grupos que controlam o poder tendem a se ver como autossuficientes. Passam a acreditar que ninguém de fora pode estar certo. Mas essa certeza é ilusória, e perigosa. Ser “escolhido” não garante justiça; pode apenas revelar o erro de uma sociedade.
Essa inclinação humana, presente desde os tempos antigos, de buscar no mito ou em Deus uma justificativa para se considerar intocável, já levou muitos ao colapso. É um caminho que cega e conduz à ruína.
Por isso, não é saudável desprezar o arcabouço institucional e os princípios que sustentam a ordem. Foram necessários anos de construção para fortalecer instituições, reduzir o oportunismo e garantir direitos (Coase).
Ainda assim, o ser humano é inclinado ao oportunismo. Por isso, precisa ser contido por estruturas que limitem o abuso de poder. Afinal, o que está em jogo são vidas, e liderar é, antes de tudo, protegê-las.
O autoritarismo disfarçado de virtude, a falsa bondade que elimina o conflito e o engano como instrumento revelam o quanto é difícil conter o uso indevido do poder. Muitas lideranças se mantêm por anos, e a única esperança parece ser a Providência.
Ainda assim, nenhuma visão determinista deve eliminar a luta por justiça.
Como povo, somos chamados a resistir ao abuso de poder. A nos opor àqueles que, isolados e alucinados por seus benefícios, decidem sobre a vida de muitos que trabalham, sustentam suas famílias e mantêm o reino.
Essa nunca foi uma luta fácil, e muitos já sofreram pela verdade. Opor-se a uma estrutura que faz uso dos limites das pessoas não é algo simples, porque exige abrir os olhos de muitos. Contudo, é certo que aqueles que se aproveitam disso, consciente ou inconscientemente, não terão um fim agradável.
Quando falham as leis e o povo, resta à humanidade aquilo que o homem não controla.
Desse modo, o que resta para os que sofrem é o confronto com uma autoridade que ultrapassa qualquer poder: a verdade. Diante dela, nenhum trono permanece de pé por muito tempo. Porque não depende dos mesmos homens, nem de suas intenções, mas da capacidade de sustentar-se diante da realidade. Estruturas que se afastam dela acabam, cedo ou tarde, cedendo lugar a outras.
