É comum encontrarmos referĂŞncias Ă s análises de Zygmunt Bauman sobre a modernidade lĂquida. Mas muito do que se diz sobre aquilo que ele analisa sĂŁo compreensões vagas que acreditam tocar a ideia de consumo nesse tipo de sociedade.
Se Bauman está correto, o consumo lĂquido nas relações sociais está cada vez mais presente em toda parte no desenvolvimento do capitalismo contemporâneo. As pessoas estĂŁo consumindo umas Ă s outras no trabalho, nas famĂlias, nas amizades e nas igrejas ou templos religiosos.
Mas em que os discursos a respeito da modernidade lĂquida de Bauman sĂŁo vagos? Ao tentar olhar para a sua análise somente de um ponto de vista de coitados sendo consumidos por outros, a partir de uma exploração passiva em vez de ativa.
Ao considerar isso, Ă© importante entender que nesse tipo de sociedade existe consumo e oferta. Ou seja, as pessoas podem nĂŁo estar apenas consumindo de maneira lĂquida umas Ă s outras em suas relações, em função de seus interesses, mas tambĂ©m se autoofertando para serem escolhidas, terem utilidade e serem vistas como desejáveis, relevantes ou necessárias, permitindo que outros possam “gastá-las” para suprir alguma necessidade.
É esta a visĂŁo: as relações sociais passam a funcionar como um mercado em que indivĂduos se oferecem como mercadorias consumĂveis.
Dessa forma, existe uma concorrĂŞncia, e nĂŁo se trata apenas de coitados sendo explorados. Pelo contrário, muitos, em muitos lugares, querem os benefĂcios dessa exploração ativa ou se adaptam a ela em busca de reconhecimento, pertencimento ou estabilidade social.
Eles sabem do que os exploradores sĂŁo capazes, muitas vezes, mas se ofertam. É o indivĂduo como objeto e como consumidor. E a prĂłpria ideia de relação lĂquida Ă© a de ser usado atĂ© que se esgote a utilidade percebida.
Em A Metamorfose, Franz Kafka, ao observar a sua sociedade, nos mostra como, dentro das famĂlias, tambĂ©m está presente a exploração do outro. Enquanto Gregor Ă© capaz de sustentar a famĂlia, ele Ă© valorizado.
Neste mercado em que as pessoas estĂŁo se oferecendo para outros consumirem, elas se ofertam como bons trabalhadores, bons religiosos, bons amigos e familiares. Essa liquidez nĂŁo elimina os vĂnculos humanos, mas organiza a sociedade de uma forma em que a atratividade do outro e para o outro passa a ocupar um lugar central nas relações.
Dentro da leitura de Bauman, a modernidade lĂquida faz com que as relações humanas deixem de ser apenas vĂnculos duradouros, estruturas estáveis e identidades contĂnuas.
Ela transforma o indivĂduo em alguĂ©m que precisa permanecer constantemente desejável, adaptável e consumĂvel em diversos espaços sociais. Já nĂŁo basta apenas existir ou cumprir uma função: torna-se necessário demonstrar adaptabilidade, comportamento, entusiasmo, alinhamento e capacidade de agradar.
Dessa forma, as pessoas aprendem a sinalizar valor de uso, moldam linguagem e postura, administram a prĂłpria subjetividade e transformam caracterĂsticas pessoais em capital social. É a lĂłgica de mercado reorganizando nĂŁo apenas aquilo que o indivĂduo produz, mas tambĂ©m aquilo que ele Ă©.
E quando juntamos a análise de Bauman com a noção contemporânea de niilismo, tĂŁo forte em nossa Ă©poca, temas como verdade, justiça e equidade correm o risco de serem transformados em elementos de sinalização social, os “guizos da publicidade” que buscam chamar mais a atenção no mercado em que as pessoas estĂŁo gritando desesperadas para que sejam a prĂłxima atração, mesmo que isso custe negociar a personalidade e a individualidade.
Portanto, nĂŁo se trata apenas de consumir, mas de consumir e se ofertar ativamente. Trata-se de um consumo estrutural, a partir de sua análise. Essa oferta de si mesmo ocorre porque há benefĂcios: status, reconhecimento e pertencimento.
Nesse tipo de sociedade, segundo a análise, até mesmo valores podem ser absorvidos pela lógica de consumo, servindo para sinalizar disposição de ter utilidade como mercadoria.
Dessa maneira, comportamentos passam a ser condição para a satisfação do outro. Ou seja, há um contrato em que a autenticidade muitas vezes precisa ser reduzida ao conformismo, e em que crenças, valores e visões pessoais podem ser moldados pelas exigências de aceitação social.
As pessoas precisam cumprir um contrato, anunciar que estĂŁo dispostas a certos comportamentos como garantia, para sinalizar que estĂŁo prontas a abandonar partes de sua individualidade por algo maior que elas: a vontade de ser explorado para servir a um propĂłsito social.
Nesse cenário, o indivĂduo passa a se ver como mercadoria, cuja utilidade pode satisfazer outros. Mas nĂŁo apenas isso: ele tambĂ©m começa a perceber aquilo que os demais desejam e, entĂŁo, passa a se ajustar e se modificar para servir ao consumo.
Portanto, essa sociedade pode produzir, em diversos lugares, pessoas que observam aquilo que Ă© desejado e moldam seus comportamentos para sinalizar que sĂŁo Ăşteis como mercadorias.
.png)